José de Dome (1921-1982): ilustre desconhecido



25/09/21 03h32   Artigos Imprimir
José de Dome aos 49 anos, em Cabo Frio, cercado por algumas de suas telas. (Manchete, Rio de Janeiro, 15 de agosto de 1970, p. 116).

 

 

Por: Danrley de Lima Santos

 Licenciado em História – UFS

E-mail: danrleyufs@gmail.com

Introdução

O pintor estanciano José de Dome é uma glória das artes plásticas nacionais. Suas obras estão espalhadas por galerias do Brasil e do estrangeiro. Seu trabalho mereceu da crítica especializada apreciações muito favoráveis. No entanto, em Sergipe, poucos conhecem a arte de José de Dome. Em nosso estado não há galeria que exponha sua obra e em Estância nenhuma rua ou logradouro público lhe presta homenagem. Enquanto este quadro não se reverte, apresentemos alguns fatos básicos da sua biografia.

Fases da vida do artista:

Estância (1921-1939): Infância e adolescência

José Antônio dos Santos, nome civil de José de Dome, nasce em 14 de dezembro de 1921 em Estância-SE. É filho de Domitilla Pastora dos Santos, lavadeira e tecelã e de Fortunato José dos Santos. Com cerca de 4 meses de idade (5 de março de 1922) recebe o batismo na matriz da Paróquia de Nossa Senhora de Guadalupe pelo vigário Monsenhor Victorino Fontes, tendo como padrinhos Elysio Alves Lima e Nossa Senhora da Conceição1. O artista teve dois irmãos: Elienal de Jesus e José Reginaldo2. Dome vive uma infância de dificuldades. Sua vocação para as artes se manifesta cedo, assim, desde os 14 anos, além de trabalhar numa fábrica de tecidos como a mãe, já fazia teatro com um grupo de amigos, chegando a encenar em Estância a peça de Joracy Camargo “Deus lhe pague”. Vem dessa época a adoção do nome José de Dome (provavelmente o diminutivo do nome da mãe) motivada por haver na rua onde morava muitos Josés3.

Salvador (1939-1965): Primeiras pinceladas

Em 1939, ano da morte da mãe, Zé de Dome transfere-se para Salvador, onde irá morar no bairro do Rio Vermelho, nas proximidades da Igreja de Santana4. Na capital soteropolitana ganha a vida exercendo os ofícios de fiador, tecelão, ajudante de pedreiro, guarda-noturno, marceneiro e entregador de pão. Nessa época sua ambição era ser ator, mas fracassa e se volta para pintura, aprendendo a arte a partir da observação e da leitura de livros sobre o assunto5. Morando em Salvador, Dome se aproxima de figuras como o escritor Jorge Amado, artistas plásticos como Jenner Augusto e Carybé, além de cantores, a exemplo de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Dorival Caymmi6. Vende sua primeira obra em 1945, por 200 cruzeiros7. É nesta fase (1955) que o artista realiza sua primeira exposição individual, na galeria Belvedere da Sé. É ainda morando em Salvador que o pintor recebe o seu primeiro prêmio (1956) e participa de sua primeira exposição individual no Rio de Janeiro, na Galeria Macunaíma (1961)8. Um ano depois (1962), participa da exposição Artistas do Nordeste, realizada em Salvador. Em 1963 expõe em Salvador, em Estância, Los Angeles e Aracaju. Esta última é patrocinada pela Prefeitura de Estância e por Hélio Amado, industrial sergipano amigo do artista9.

 Rio de Janeiro e Cabo Frio (1965-1982): Consagração e morte

Em 1965 termina a fase baiana de José Dome. Naquele ano, muda-se para o Rio de Janeiro, motivado inicialmente pela entrega de duas telas encomendadas pelo Governador da Guanabara, o conhecido Carlos Lacerda (1914-1977). Instala-se no Leblon, num apartamento que lhe fora emprestado pelo amigo Jorge Amado. Nesta curta temporada carioca, Dome faz uma exposição individual na Galeria Bonino. No mesmo ano, muda-se para a cidade de Cabo Frio, localizada na região dos lagos10. Apaixona-se pelo local e lá permanece até a morte, convivendo próximo aos pescadores e ao litoral (temas favoritos da sua arte) e se dedicando à pintura e à criação de corujas. Nesta última fase da vida realiza muitas exposições: Lima (1966), Rio de Janeiro (1967), Salvador (1968) São Paulo (1969), Londres e Barcelona (1971). O artista torna-se uma figura querida na cidade. No ano de 1970, Dome participa do II Festival de Artes e Cultura Negra, em Lagos, Nigéria. O evento conta com a participação de Gilberto Gil e Zezé Mota11. Segundo amigos, Zé de Dome costumava­ pintar ao som de músicas clássicas, principalmente Mozart e Chopin12. Em 1 de maio de 1971, recebe o título de cidadão cabo-friense13. Neste período o artista visita Estância regularmente, geralmente em duas ocasiões: em junho, nos festejos juninos e em dezembro, nas festas natalinas. Uma de suas últimas exposições acontece na Galeria Cassino Estoril, em Portugal, em 1981. Para essa exposição ele contou com a ajuda de Jorge Amado e Carybé14. José de Dome falece em 15 de abril de 1982, vítima de um enfarto fulminante ocorrido durante uma de suas costumeiras caminhadas pelas ruas do centro da cidade 15. Apesar do inesperado da morte, ao que parece o artista teria tido uma premonição. Poucos dias antes do enfarto, ele solta todas as corujas do seu criatório.

Conclusão

Ao longo da sua vida de artista produtivo, Dome legou uma obra marcante no cenário da pintura brasileira contemporânea. Críticos de renome atestaram isso. Walmir Ayala (1933-1991), por exemplo, diz que Dome “ressalta a organização do espaço através de uma pincelada quente e generosa, um ritmo de impulso gestual que transforma uma paisagem, um retrato, uma figura qualquer em matéria pictórica de primeira.”16. Para Antônio Celestino (1917 - 2013), Zé de Dome “nos mínimos apontamentos, procurava no requinte e no detalhe a preocupação da sua independência completa, sempre com uma delicadeza, simples mas levemente formal”17. Outra apreciação foi feita pelo conhecido poeta Ferreira Gullar, que define a pintura do artista como sendo “uma linguagem sem atavios para preservar o impacto da emoção”18. A crítica o batizou de “o rei dos amarelos”, devido à predominância desta cor em suas telas. 

Embora José de Dome seja uma figura de destaque nacional e internacional, infelizmente ainda não recebeu de sua terra natal uma homenagem condizente com a grandeza de sua produção artística. Que esta breve notícia ajude a reverter essa situação.

Notas:

1. Livro de Batismos da Paróquia de Nossa Senhora de Guadalupe. Estância – Se: 1921-1922. p. 69.

2. DEBORAH, Dumar. Os herdeiros de José de Dome. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 12 de junho de 1982, p.1.

3. José de Dome descobre o mundo. Última Hora, Rio de Janeiro, 3 de agosto de 1961, p.12.

4. PORTO, José Passos. [Necrológio do pintor José de Dome]. Diário do Congresso Nacional. Brasília: 20 de abril de 1982, p. 1110-1111; LADEIRA, Célia Maria. José de Dome: a cor da vida. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 24 de agosto de 1972, p. 4. 

5. José de Dome descobre o mundo. Última Hora, Rio de Janeiro, 3 de agosto de 1961, p.12.

6. Justiça decidirá a “guerra” pelo acervo de José de Dome. O Fluminense, Estado do Rio de Janeiro, 1 de junho de 1982, p.12.

7. José de Dome descobre o mundo. Última Hora, Rio de Janeiro, 3 de agosto de 1961, p.12.

8. AYALA, Walmir. A arte de José de Dome. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 29 de agosto de 1969, p.2.

9. LADEIRA, Célia Maria. José de Dome: a cor da vida. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 24 de agosto de 1972, p. 4

10. LADEIRA, Célia Maria. José de Dome: a cor da vida. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 24 de agosto de 1972, p. 4

11. Pintores consagrados expõem no Malibu Hotel. O Fluminense, Estado do Rio de Janeiro, 6 de julho de 1981, p.8.

12. Obras de José de Dome ficarão no município. O Fluminense, Estado do Rio de Janeiro, 29 de abril de 1982, p.2.

13. Cabo Frio terá De Dome como cidadão. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 de abril de 1971, p. 10

14. Amigos e admiradores sepultaram José de Dome. O Fluminense, Estado do Rio de Janeiro, 16 de abril de 1982, p.13.

15. Revista Veja. São Paulo, 21 de abril de 1982, p. 122.

16. AYALA, Walmir. A arte de José de Dome. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 29 de agosto de 1969, p.2.

17. CELESTINO, Antônio. José de Dome. In: Gente da Terra. São Paulo: Martins Editora, 1972. p. 120.

18. GULLAR, Ferreira. Pintura Vital e Apaixonada de José de Dome. Em: Arte Brasileira Contemporânea. São Paulo: Lazuli, 2012.