‘Os jornais vão sobreviver independente do formato’, diz presidente da ANJ



08/04/19 05h37   Diversos Imprimir
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Quem olha para Marcelo Rech dificilmente imaginará, à primeira vista, a trajetória por trás do homem elegantemente vestido e polidez na fala. Aos 57 anos e quatro décadas de carreira na imprensa, o jornalista nascido em Porto Alegre carrega no currículo de correspondente especializado em conflitos internacionais a cobertura de dois grandes confrontos bélicos dos anos 1990: as guerras travadas no Golfo Pérsico e nos Balcãs, região do Sudeste europeu que abriga as nações antes aglutinadas em torno da extinta Iugoslávia, além da queda da União Soviética.

Formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1981, Rech deixou a longa trajetória nas redações, iniciada de forma precoce no fim dos anos 1970, para se tornar um dos mais destacados executivos e representantes da imprensa brasileira. Vice-presidente editorial do grupo RBS, maior conglomerado de mídia do Sul do Brasil, e do Fórum Mundial de Editores, Rech também é presidente, pela segunda vez, da Associação Nacional dos Jornais (ANJ).

À frente da entidade, o veterano correspondente de guerra virou defensor incansável dos veículos impressos como trincheiras máximas do conteúdo jornalístico com credibilidade, onde a verdade e a relevância são matérias-primas indispensáveis para esclarecer e informar.  Em passagem por Salvador, Rech foi convidado, ontem, a falar para os colaboradores da Rede Bahia sobre a atual importância dos jornais, em palestra realizada no auditório da empresa.

Para ele, numa época caracterizada pelo fluxo de informações disseminadas sem controle, muitas delas desprovidas do trabalho prévio de apurar com rigor os diversos ângulos, dados e opiniões, os veículos impressos se transformaram no refúgio aos que buscam informações com veracidade e querem se aprofundar além das notícias para consumo rápido.

Na contramão dos que se apressam em decretar a morte dos jornais, Rech está convicto de que a mensagem jornalística relevante e de interesse coletivo sobreviverá a qualquer intempérie, independente do meio que  chegará ao leitor. “Cada vez mais as pessoas vão querer saber se o que chega para elas por meio das redes sociais é verdade ou desinformação” afirma Rech, em entrevista ao CORREIO, na qual falou ainda sobre os ataques à imprensa, erros e desafios dos jornais e a infância em Salvador.

É comum ouvir, em debates sobre a imprensa, previsões que apontam para a morte dos veículos impressos. O jornal em papel vai acabar ou sobreviverá por muito tempo?   
Ele vai existir enquanto houver pessoas que queiram ler nesse formato. O mais importante é que nós não estamos no ramo da impressão de papel. Nosso ramo é produção de conteúdo, conhecimento e informação com confiabilidade e credibilidade, independente do meio de distribuição. Enquanto houver demanda, haverá o papel. Da mesma forma em relação ao celular, tablet, desktop, laptop ou outra forma que ainda será inventada. Particularmente, acho que o papel vai durar muito tempo ainda, por que ele tem um aspecto inigualável em comparação com outros meios. Ele permite um maior nível de concentração por parte de quem vai absorver a informação. Os demais têm um grau de dispersão maior.

O caminho para a sobrevivência não do impresso, mas do conteúdo que é hoje produzido pelos jornais, tem qual direção?    
As pessoas compram um jornal hoje em busca de conteúdo diferenciado, exclusivo e relevante. Ou seja, pagam pela informação que só encontram nele. O grande desafio é que cada veículo encontre seu lugar no universo e faça dele uma coisa única, sem igual, que outros não conseguem produzir. Levar conteúdo diferenciado, bem apresentado e com confiabilidade certamente fará diferença.

E para a sobrevivência econômica desses veículos, tendo em vista o novo modelo de distribuição publicitária, baseado em algorítimos que direcionam os anúncios com base no perfil do usuário nas redes? 
Acho que os jornais (em versão digital) erram muito ao transferir a decisão editorial e publicitária para um algorítimo. Ele é, óbvio, mais um elemento para ser usado, mas não pode ser decisivo. A nossa atividade jornalística não é a mais propícia para fazer amigos. Muitas vezes precisamos confrontar anunciantes e o poder, grupos de pressão e ativistas, à luz da veracidade da informação, da pluralidade de opiniões. Isso não pode ser transferido para um algorítimo.

Mas hoje existe uma forte dependência da audiência, especificamente, dos jornais que também estão no formato digital. Como driblar tal mecanismo? 
Uma das fortalezas dos jornais não é o famoso click byte, a busca do clique a qualquer preço. O posicionamento e os valores são o que os diferenciam. Se for apenas para obter cliques, seguramente a credibilidade e a imagem seriam afetadas. A estrutura central dos jornais, o que os sustenta, é a confiança no que é publicado. Isso não pode ser perder nunca.

A epidemia de fake news pode recolocar os jornais no lugar de instância que separa a informação verdadeira da mentira disfarçada de notícia? 
Mesmo antes do surgimento dessa expressão, o papel da imprensa sempre foi a busca pela verdade, de maneira independente e técnica. Essa é atividade primordial do jornalismo. O que as fake news fizeram foi acelerar, numa contribuição involuntária, o processo de relevância do jornalismo para sociedade.

Ao mesmo tempo, assistimos a uma onda de ataques contra a imprensa tradicional, de certa forma estimulada pelos altos escalões do poder no mundo e disseminada nas redes e aplicativos de mensagem. Como lidar com tamanha artilharia em um ambiente inflamado como o atual ? 
Esse é um problema que não está restrito a determinado país. Em muitos lugares, há uma gestão de rede social por políticos, governos, ativistas e grupos no sentido de tentar desqualificar os meios de comunicação profissionais. Ocorre nas Filipinas, Turquia, Estados Unidos, Venezuela e tantos outros, geralmente, onde vigoram o populismo ou o autoritarismo. Mesmo em países amplamente democráticos, como França e Espanha, vemos isso, com origem em partidos ou movimentos organizados. É consequência da redes, que têm um lado saudável, o de permitir maior difusão das informações, mas trazem a percepção errada de que qualquer um pode substituir o jornalismo.

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