Opinião - Brasília, água e sabão



15/05/20 01h22   Artigos Imprimir

 

[*] Natália Dalto

Estamos nos aproximando dos 50 dias de distanciamento social. Medida recomendada pelas autoridades médicas e científicas, por causa da Covid-19. Em outros países, a pandemia estabeleceu uma conectividade objetiva em torno da necessidade de todos estarem unidos para evitar o pior: que um número ainda maior de pessoas venha morrer.

Entretanto, no Brasil uma tragédia que se estendeu por todos os continentes não é suficiente para rompermos um ciclo histórico de paternalismo, excesso de burocracia e divisões em guetos políticos e sociais.

Aqui, levamos às últimas consequências o ditado “farinha pouca, meu pirão primeiro.” E, isso não apenas do ponto de vista material. Hoje, estamos divididos em um sectarismo político que faz com que a insanidade ultrapasse a razão, porquanto temos um presidente na contramão do mundo, que está mais preocupado em salvar o caixa das empresas e utilizar o cargo para blindagem de amigos e familiares.

A pandemia não lhe diz respeito, porque não é o nosso salvador; o engarrafamento de carros funerários nos cemitérios de Manaus, nada significa; a doença avança e Brasília flutua no oceano obsceno da irracionalidade, prestes a nos mergulhar num processo de impeachment, gerando uma crise política em meio à maior crise sanitária dos últimos 100 anos.

Enquanto na Faixa de Gaza os árabes e israelenses se uniram para combater o coronavírus, nós brasileiros sempre conseguimos o inimaginável... Começamos a pandemia com um presidente desafiando a comunidade científica internacional e negando o inegável.

Nas redes sociais, os seus adeptos, com fidelidade canina, defendem-no ferozmente sem qualquer argumento lógico, apenas porque “o presidente falou”, dando origem a um clima de desagregação que só dificulta o que deveria ser a preocupação de todos: o combate ao coronavírus.

Mas, por que essas palavras tão duras, se é bem verdade que, por outro lado, há centenas de milhares de pessoas arriscando suas vidas (profissionais da saúde, bombeiros policiais), voluntários, empresas com doações vultosas, enfim, mobilizações consistentes para evitar a propagação da Covid-19 e socorrer a população mais vulnerável? Por que precisamos ter alguma expectativa sobre o país que queremos ter após a pandemia.

O que vai mudar? O que vamos mudar? Um bom começo é acreditar que a mudança começa por nós mesmos! Ao invés de vidas, o Coronavírus deveria estar levando para o túmulo velhos conceitos enraizados que nós brasileiros, em pleno século XXI, insistimos em manter.

O mito do pai, do herói, do salvador da Pátria, não condiz com a era tecnológica do século XXI. A personalização do poder, seja ele de direita, de centro ou de esquerda, revela apenas a dependência emocional-política de um povo incapaz de construir o seu futuro, com as próprias mãos.

A pandemia nos deixa a lição de um mundo onde não há espaço para mitos; expõe que os mitológicos escondem por trás dos seus discursos e dos seus subterfúgios para aglutinar cegos irracionalizados e, assim, conseguem se manter no poder com os “seus”, que no caso presente, significa a família.

A reflexão que nos impõe é a necessidade da construção de um projeto de país capaz de nos unir em torno de uma perspectiva amplamente democrática, verdadeiramente republicana, focado na solução da grave desigualdade social que persiste e se aprofunda nos dias de hoje.

Afinal, em Brasília ministros se demitem e são demitidos, o presidente quer interferir na Polícia Federal e no Exército, briga com governadores, disputa poder com o Congresso e com o Judiciário, flerta perigosamente com a ditadura do passado e coloca em primeiro plano, não o país, mas o seu clã, enquanto aqui no plano de baixo, milhões de pessoas não têm água e sabão em suas casas para lavar as mãos e atender à mais rudimentar norma de proteção contra o Coronavírus.

[*] É assistente social porta voz da Rede Sustentabilidade Aracaju.