O Imperador e a Princesa do Piauitinga: a visita de D. Pedro II à Estância (1860)



15/12/20 02h35   Artigos Imprimir

 

Prof. Danrley de Lima Santos

 Licenciado em História (UFS)

Colaborador no perfil Memórias de Estância (@memoriasdeestancia)

E-mail: danrleyufs@gmail.com

 

A visita do imperador D. Pedro II (1825-1891) à Estância, ocorrida entre os dias 19 e 21 de janeiro de 1860, é um fato citado, com orgulho, por vários estancianos. Entretanto, pouco se sabe a respeito das ações do monarca durante os três dias de sua estadia na cidade. Visando a preencher tal lacuna, este texto visa reconstituir um dos eventos mais significativos da história estanciana.

Nos anos de 1859 e 1860, D. Pedro II decidiu fazer uma série de viagens às províncias do norte do Brasil. Dentre tais províncias, a de Sergipe foi uma das que tiveram a honra de receber o ilustre “turista”. O monarca conheceu as cidades sergipanas de Neópolis, Propriá, Aracaju, Maruim, Laranjeiras, São Cristóvão e, por último, antes de rumar para a Bahia, Estância. Sua comitiva incluía, além da imperatriz Tereza Cristina (1822-1889), camarista, mordomo, guarda-roupa, médico e padre. Todas as despesas foram custeadas pelo próprio imperador.

A comitiva real chegou à Estância em 19 de janeiro de 1860, às 17h30 da tarde, por via fluvial (rio Piauí). O desembarque se deu no porto da cidade. Frise-se que, segundo as fontes de época, o imperador desembarcou no Porto d’Areia e não na Ponte do Bonfim, como quer certa predição oral difusa entre alguns pesquisadores.

Após o desembarque, feito numa ponte construída especialmente para a ocasião, D. Pedro II e comitiva são recepcionados por numeroso público, no qual estavam autoridades civis, militares, religiosas, políticas e um pequeno grupo de 50 indígenas vindos da chapada do Geru (região que hoje corresponde ao munícipio de Cristinápolis). 

Ato contínuo a esse primeiro contato, D. Pedro II e a Imperatriz Teresa Cristina se dirigiram a um altar montado num dos trapiches que existiam na região. Nesse local, ocorre uma cerimônia de beijo no crucifixo.

Encerradas as festividades iniciais, conforme relato de uma testemunha dos acontecimentos, o grupo sobe por “uma ladeira bem longa”, parando na metade do caminho, em local denominado Alto da Conceição. É importante mencionar que este logradouro da cidade conserva até hoje o mesmo nome. Pouco tempo ficaram ali. A comitiva imperial seguiu caminho a pé e chegou ao Largo Rosário.

Chegando ao Largo do Rosário (ou, atualmente, Praça Orlando Gomes), outra homenagem foi prestada aos ilustres visitantes. Um grande palanque, vastamente ornamentado, fora erguido para recebê-los. D. Pedro II é agraciado com as chaves da cidade, tendo recebido a honraria das mãos do presidente da Câmara Municipal.

Terminada essa outra deferência, seguiu a comitiva pela Rua do Rosário (hoje Capitão Salomão). Segundo Luiz Álvares dos Santos, jornalista que presenciou os acontecimentos, “estava essa rua toda enfeitada”, tendo sido postos “três arcos: dois nos extremos e um no centro da rua...”. Ainda segundo o jornalista, no topo dos postes da rua, tremulavam bandeiras do império.

Finda a passagem pela Rua do Rosário, chegam Suas Majestades Imperiais à Praça da Matriz, atual Praça Barão do Rio Branco. Mais homenagens são prestadas. Cerca de 3000 pessoas acompanharam a comitiva do desembarque até a Praça, dando razão a Luiz Álvares quando diz que “foi estrondosa a recepção [das Suas Majestades Imperiais] na Estância”.  

Ainda houve tempo para que Suas Majestades dessem beija-mão à Câmara e demais pessoas. O beija-mão, convém explicar, é cerimônia de reverência comum nas monarquias na qual os súditos se ajoelham à frente do monarca e beijam-lhe a mão. Nesse momento, o casal imperial já estava estabelecido no improvisado Paço Imperial, um belo sobrado de dez janelas cedido pelo coronel luziense Dr. João José de Bittencourt Calazans (1811-1870). Em seguida, a Igreja Matriz de Estância celebrou um grande Te-Deum (hino católico executado em situações especiais), para celebrar tal momento histórico.

Às 22:00 horas, recolheram-se aos quartos, para descansar das “fadigas daquele dia, que não tinham sido poucas”. Vale nota que o sobrado no qual o imperador e a imperatriz pernoitaram foi demolido no início do século XX, infelizmente.

O segundo dia da visita imperial também foi movimentado. Já às 06:00h da manhã o monarca estava acordado e, montado a cavalo, visitou uma série de pontos da cidade acompanhado por figuras ilustres da cidade, a exemplo do promotor Dr. Conrado Álvaro de Cordova Lima (1834-1890).

Dos locais visitados, mereceram maior atenção as escolas. Parece que era sua “mania” predileta. Em todas as cidades por onde passou, D. Pedro II tomou nota do nível de instrução de alunos e professores. Em Estância, claro, não foi diferente.

Ao todo foram 5 escolas visitadas. Os professores Isaias de Sousa, Leolpondina J. F. da Rocha, Florêncio, Moreira Queiroz, Adelaide Serafina e seus respectivos alunos tiveram a “tranquila” missão de responder a arguição do imperador. Além das perguntas, a condição material do estabelecimento também sofria inspeção. Vejamos o que diz D. Pedro a respeito da aula de Isaias de Sousa, “falta utensílios e antes de minha visita liam só cartilha; não escrevem [há] 15 dias por falta de papel. 1º lê sofrível pouca gramática. Divide bem sabe a prova real. [...] sabem as rezas mas pouca explicação; [...] Letra dos meninos menos boa, assim como a do professor no livro de matrícula.”

Outras partes da cidade receberam a “Imperial Visita”, como a ponte da cachoeira, os dois cemitérios da cidade, sendo um ainda em construção, as igrejas do Bonfim, do Amparo, do Rosário e da Matriz, a cadeia pública, o quartel, o internato e a Câmara Municipal.

Um outro aspecto da cidade assinalado pelo monarca em seu diário é que a guarnição da Guarda Nacional de Estância estava mal organizada. Ainda nos diz que a igreja do Rosário passava por reparos e que a ponte da cachoeira começou a ser construída em 1854, sendo finalizada em 1857. Fato notável também foi a criação do Imperial Instituto de Agricultura Sergipano, instituição fundamental para o desenvolvimento da agricultura sergipana. 

No fim do dia, já recolhido ao temporário Paço Imperial, numa das janelas, assistiu mais uma vez às manifestações de carinho e reverência dadas por estanciamos e demais pessoas que vinham de vários locais para vê-lo.

Às 6:00 da manhã do dia 21, sob as mais efusivas aclamações, Suas Majestades Imperiais embarcaram no navio Pirajá que os levou a outro, o Apa. Nesta última embarcação rumaram em direção à Bahia. Findava assim uma das mais importantes visitas que a urbe de Capitão Salomão (1855-1897) já recebeu.

 

Fontes e bibliografia consultadas:

 

Diário do Imperador D. Pedro II na sua visita a Sergipe em janeiro de 1860. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, Aracaju, n.26, p. 64-78, 1962-1965.

SANTOS, Rogério Inácio dos. Uma fonte para a História da visita de D. Pedro II a Sergipe: Viagem Imperial à Província de Sergipe (1860), transcrição modernizada. São Cristóvão: DHI/UFS, 2009. (Monografia em História).

LACOMBE, Lourenço Luiz (prefácio e notas). Dom Pedro II - Viagens pelo Brasil: Bahia, Sergipe e Alagoas (1859). 2ed. Rio de Janeiro: Bom Texto; Letras e Expressões, 2003.

CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II. São Paulo: Cia das Letras, 2007, p. 140-141.

GUARANÁ, Armindo. Dicionário Biobibliográfico Sergipano. Rio de Janeiro: Editora Pongetti, 1925.