PEQUENA RESENHA DE UMA OBRA MONUMENTAL: “PEDAGOGIA DO OPRIMIDO” DE PAULO FREIRE (1921-1997).



20/09/21 12h04   Artigos Imprimir

Moisés Santos Souza*

 

“(...) o educador já não é o que apenas educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa (...)”. Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido.

 

Escrito originalmente no Chile por Paulo Freire (1921-1997), entre os anos de 1964 e 1968, e publicado primeiramente em inglês em 1970, o livro “Pedagogia do Oprimido” é um dos ensaios teóricos brasileiros que ainda provoca um grande impacto no debate público sobre educação no país e no mundo. Explica-se o fato da continuada importância da obra em questão, a procura e o fazer constante de novas leituras, traduções e interpretações, ocorridas ao longo dos anos, além do permanente diálogo e das relações estabelecidas da obra com as problemáticas apresentadas pela atual ordem social, econômica, cultural e política, tanto do Brasil, como de diversas partes do globo. É um livro que, apesar dos 51 anos de publicação, mantém levantado um debate cada vez mais relevante, urgente e necessário. Soma-se também, ao interesse na leitura nos nossos tempos, mais dois importantes fatos: o centenário de Paulo Freire neste ano de 2021 e os constantes ataques que o autor e obra vem sofrendo, por parte de “pensadores" conservadores, que não vislumbram nem defendem posturas de mudanças ou possibilidades de mudanças nas estruturas sociais do Brasil, a partir da educação. A educação é um fator primordial na mobilidade social de qualquer sociedade, e este é um ponto que o livro em questão defende.

Antes de relatar com mais precisão o conteúdo e as principais teses da Pedagogia do Oprimido, é fundamental narrar um pouco sobre o autor e as circunstâncias da feitura da obra.

O advogado e educador Paulo Reglus Neves Freire, nasceu no Recife, Pernambuco, em 19 de setembro de 1921. Casou-se duas vezes. A primeira em 1944, com Elza Maria Costa de Oliveira, uma professora de escola primária e após o falecimento de Elza, um segundo, com a educadora Ana Maria Araújo, em 1988. Do primeiro casamento teve cinco filhos: Maria Madalena, Maria Cristina, Maria de Fátima, Joaquim e Lutgardes.

Diplomou-se em 1946, na tradicional Escola de Direito de Recife, mas logo após não seguiu a prática da advocacia. Substituiu a prática profissional pela docência, lecionando inicialmente português e anos após, foi professor de Filosofia da Educação, na Escola de Serviço Social do Recife. A passagem por esta instituição e as experiências em projetos educacionais de alfabetização de adultos do SESI, marcaria profundamente a vida profissional e intelectual de Paulo Freire. Exerceu também diversas posições, devido ao reconhecimento de seu método de alfabetização aplicado na periferia do Recife, como a coordenação do Programa Nacional de Alfabetização no Governo João Goulart, entre os anos de 1963 e 1964. Por causa da participação militante e ativa nesse governo e no fazer do seu método, teve que partir para o exílio, com o advento da Ditadura Militar (1964-1985). No exílio, passou pelo Chile, Estados Unidos e na Suíça, retornando ao Brasil em 1980, logo após o processo de abertura política promovido pela anistia em 1979. Neste retorno ao país, Freire integrou o quadro de filiados e militantes do Partido dos Trabalhadores (PT) e foi secretário de educação da cidade de São Paulo, na gestão petista de Luiza Erundina (1989-1992), onde sofreu resistências por parte de veículos de comunicação, pensadores e políticos conservadores, pelas práticas educacionais revolucionárias e libertadoras promovidas por ele. Em 2 de maio de 1997, Paulo Freire faleceu em São Paulo, aos 75 anos.

Entre suas principais obras estão: Educação e atualidade brasileira (1959), Educação como prática da liberdade (1967), Pedagogia do Oprimido (1970), Educação e Mudança (1979) e Pedagogia da Esperança (1997).

Fruto das experiências e observações anteriores de Paulo Freire, somados as novas vivências do fazer pedagógico e da realidade chilena, e ampliando as reflexões da obra predecessora Educação como prática da liberdade, o livro Pedagogia do Oprimido é, como diz o prefaciador, “a dimensão educativa da ação dos homens empenhados na luta pela libertação” (1). Pois, segundo o mesmo, “a opressão, os traços identificadores do pensamento e das práticas do oprimido, e mesmo a existência de uma ordem social que gera e sustenta a situação do oprimido", se fazem presentes “explícita ou implicitamente”, nas exposições e análises do livro. (2).

A leitura do livro não é uma leitura fácil, pois o mesmo só pode ser devidamente compreendido a partir das abstrações conceituais das dualidades “opressores-oprimidos”; “educação bancária e educação problematizadora"; “educadores-educandos”; “educandos-educadores”; “dialogo libertador e medo da liberdade", que por sua vez, essas abstrações tem uma comunicação direta ou indiretamente, com as influências teóricas que Freire teve de pensadores diversos como Platão, Georg Hegel, Karl Marx, John Dewey, Max Weber e até mesmo, Frantz Fanon.

Nos aspectos formais, o livro tem uma breve apresentação e quatro capítulos. Na apresentação intitulada “Primeiras Palavras", o autor por antecipação, comenta que as afirmações do texto provocará “reações sectárias" entre alguns leitores, pois “uns, por considerarem (...) o problema da libertação dos homens, como uma posição idealista", alguns como uma perda de tempo falar a respeito de “vocação ontológica, em amor, em diálogo, em esperança, em humildade, em simpatia”, e outros, “por não quererem ou não poderem aceitar as críticas e a denúncia (...) da situação opressora, situação em que os opressores se ‘gratificam’ através de sua falsa generosidade” (3).

Os capítulos apresentam as teses do autor, ancoradas em situações concretas, em torno das contradições entre opressores e oprimidos estabelecidos também nas instituições educacionais e nas práticas da educação.  No primeiro capítulo, analisa e examina essa contradição. No segundo, estuda as concepções bancárias e problematizadoras da educação, e os dois últimos, discute e examina a dialogicidade e a antidialogicidade como matrizes de teorias antagônicas da ação cultural.

Por fim, Pedagogia do Oprimido é uma leitura indispensável como crítica de uma educação opressora e conservadora, além de um manifesto de defesa que valoriza os oprimidos, os humildes e desvalidos do mundo em busca de uma perspectiva libertadora. Vale aqui o registro, no ano do centenário de Paulo Freire, o reforço a favor desta excelente obra, socialmente engajada e pedagógica.

 

Notas:

(1)   BEISIEGEL, Celso de R. “Prefácio à 60 Edição “. In: FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 60 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016. P. 21.

(2)   _________________ Op. Cit.

(3)   FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 60 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016. P. 55-56.

 

REFERÊNCIAS

BEISIEGEL, Celso de R. Paulo Freire. Recife: Fundação Joaquim Nabuco/Massangana, 2010.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 60 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016.

STRECK, Danilo R; REDIN, Euclides; ZITKOSKI, Jaime José (Orgs.). Dicionário Paulo Freire. 2 ed. São Paulo: Autêntica, 2010.

 

*Moisés Santos Souza é estanciano, graduado em História Licenciatura pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e professor da rede de ensino do município de Lagarto/SE.