A “Estância Secular” de Acrísio Gonçalves

Moisés Santos Souza*



24/11/21 03h11   Artigos Imprimir

O professor santaluziense Acrísio Gonçalves de Oliveira (1970-) é um exímio pesquisador do passado estanciano. Mesmo com formação adversa do campo das humanidades (ele é formado em Matemática pela UFS), tem se mostrado um competente e dedicado intérprete da história, com suas constantes colaborações na imprensa escrita de Estância e de Aracaju. Com toda franqueza, afirmo que já estava na espera de uma reunião dos seus artigos publicados nos jornais. Os artigos em conjunto, formam um certo panorama da Estância dos idos do século XIX e metade do XX.

Ao fazer os levantamentos de dados para feitura dos seus textos, e que este ano, – compilados e ampliados – passam a formar o conteúdo do livro “Estância Secular”, Acrísio afirma-se um historiador autodidata, e dos bons, sem dúvida nenhuma. Aprendeu (ao seu modo) no contato direto com o “pó dos arquivos”, os procedimentos e métodos da pesquisa, ao fazer o levantamento e preparo das fontes (a chamada heurística) para construção de uma síntese histórica.

Publicado pela Gráfica e Editora J. Andrade, o volume apresenta 34 deliciosos artigos, compreendendo uma extensa duração de tempo, que vai desde a povoação de Estância, passando pelo período de Vila Constitucional e elevação à cidade. Suas fontes são diversas, denotando uma maior confiabilidade nas informações retratadas no livro. Foram utilizados jornais de épocas distintas; calendários antigos; relatórios e documentos administrativos oficiais; inventários; fotografias; certidões de nascimento e óbito; entrevistas e respeitadas referências bibliográficas. Fez um trabalho completo do fazer histórico.

As temáticas dos artigos são variadas, mas que em conjunto se torna um belo mosaico da “Cidade Jardim" no período do Império e da República no Brasil. Os textos retratam o advento da imprensa sergipana, em terra estanciana, com a fundação do primeiro jornal “Recopilador Sergipano", em 1832; a trajetória do fundador desse jornal, o Monsenhor Antônio Fernandes da Silveira (1795-1862); demais jornais da cidade e o ambiente de suas gráficas com seus tipógrafos; os logradouros públicos com seus nomes populares, invocativos de santos ou associados a existência de órgãos públicos/religiosos e “coisas ao seu redor"; as mudanças das denominações dessas mesmas ruas em homenagens as figuras da localidade ou mesmo da história do país; as animações das festas populares como o São João e o Carnaval, com seus brincantes, suas manifestações e expressões; perfis de personalidades políticas e culturais como o poeta João Pereira Barreto (1876-1926), o político Maurício Graccho Cardoso (1874-1950) e o memorialista Manuel Rodrigues do Nascimento (1887-1963); a escravidão na cidade, com suas práticas, suplícios, resistências e fugas; as notícias da Primeira Guerra Mundial; as febres e a fome; entre outros.

Como se vê, os artigos transformados agora em capítulos, tece um proveitoso panorama da trajetória da cidade, com seus personagens, fatos e circunstâncias. É farto de apoio documental, desmonta “passados cristalizados" (como bem disse o também professor Joildo Dante, nos relatos de apresentação do livro), descobre novos documentos, interpreta-os com acuidade e destreza. Além do mais, Acrísio Gonçalves tem o domínio da escrita sem prejuízo do rigor científico.

A tudo isso, acrescento que o livro apresenta também a sua “falta”, mas não muito relevante que atrapalhe a leitura da importante obra. Faltou ao autor acrescentar, ao fim de cada artigo (ou podemos dizer, capítulo) assinalar dados da publicação original, com a indicação de tempo, espaço e veículo de circulação. Nada que não possa ser acrescentado ou corrigido em uma segunda edição.

No mais, felicito o autor por possibilitar e oferecer aos filhos e residentes da “princesa do Piauitinga”, mais uma excelente referência de pesquisa para recuperação de uma memória.

 

(Resenha do livro: OLIVEIRA, Acrísio Gonçalves de. Estância Secular. Aracaju: Gráfica J. Andrade, 2021. 344 p.).

 

*Moisés Santos Souza é estanciano, graduado em História Licenciatura pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e professor da rede de ensino do município de Lagarto/SE.